terça-feira, 24 de maio de 2011

Ponto Final

 Acabou. Não dá mais. Adeus. Até qualquer hora. Podem soar tão naturais para quem assiste imparcial, mas só quem já sofreu por não digerir bem o fim de alguma coisa sabe o que é ter que virar a esquina e se separar de tudo e todos que ficaram no outro quarteirão.
O término gera sofrimento, é praticamente sinônimo de lágrimas vertidas. Chora-se no final de filmes, novelas, músicas que lembram alguém, livros envolventes, viagens marcantes, despedidas, mas principalmente, entrega-se ao soluço quem é obrigado a deixar ir embora quem fez a diferença e tornou-se  mais importante para o coração do que a razão ousaria permitir.
A pessoa pode ter ido embora, mas sua presença vem à tona de 45 em 45 segundos, nenhum minuto livre da existência que marcou a sua. A imaginação fica mais agradável que a realidade, ou não, a partir do momento em que começa a construir as possibilidades do que um certo alguém poderia estar fazendo.E o pior é que sempre as mais temidas são cogitadas pela gota de esperança que insiste em não secar.
O chão se abre e a vontade é de deixar a porta sempre aberta, para que aquela pessoa volte quando quiser para ficar, senão para sempre, por um bom tempo, como fizera um dia. Que chegue com seu sorriso, abrace com a ternura característica, ou até mesmo chorando, não há problemas em consolar, pois o ombro sempre permanecerá amigo. Que ligue e diga as meias palavras mais esclarecedoras que já ouviu. Que venha de alma lavada pelo tempo e pela distância e a consciência limpa pela certeza dos próprios sentimentos. Que conserte os estragos de ações e palavras precipitadas, reafirme tudo o que um dia soou com a naturalidade das verdades absolutas. Que roube um beijo distraído para apagar os soluços das noites no silêncio. Que preencha o vazio destinado aos que mais significam nas fases da vida. Que se ofereça para matar o tédio, dividir a guloseima predileta  e prometa não mais ir embora.
Lindo, comovente.Nada funcional, nem praticável. A perda existe e para ela chegar basta ter, ou achar que tem, algo ou alguém. Ninguém é dono de ninguém e as pessoas são livres para ir embora, sem desculpas e geralmente com pouquíssima consideração. O que conta na hora da despedida, do deixar tomar outros rumos, não é a ausência de sofrimento porque isso é insensibilidade, mas saber lidar com ele de forma que não seja curto demais como se nada tivesse acontecido, nem tão longo como se o mundo fosse acabar porque as expectativas receberam um ponto final.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Perigo

“Por isso cuidado, meu bem, há perigo na esquina” faz parte de uma das músicas mais lindas na voz de Elis Regina. Perigo é o que nos faz olhar para os dois lados antes de atravessar a rua; o que instalou portas, grades, muros, cercas e alarmes em nossas propriedades; o que a cor ardente do fogo traduz; a intenção da placa contra animais violentos (sem fazer exceções justificadas por suposta racionalidade); o que a beira de um abismo associada à gravidade indica e o que gera várias precauções.
Há um perigo contra o qual ninguém pode lutar, é um silencioso que aflige o ser humano, por que enquanto qualquer um pode ser atingido pelo fogo, atacado por outro ser ou sofrer uma queda fatal,  apenas o racional pode ter sua auto-estima ferida em pelo menos um golpe bem baixo. Conheço quem enlouqueça caso sonhe em ser o alvo de risadas pejorativas.
É muito difícil aceitar, até mesmo lidar, mas inútil esconder: a essa hora, enquanto você faz qualquer coisa mais ou menos produtiva, pelo menos uma pessoa pode estar rindo de sua cara, de uma bobagem que você fez ou diz. Impossível prevenir e tentar viver normalmente, porque qualquer mísera piscadela pode ser criticada e virar motivo para diversão alheia. Muita gente dedica-se a isto: cuidar da vida dos outros e deles rir sem o menor escrúpulo. De vez em quando, todo mundo solta uma risadinha aqui e outra ali, tece um comentário que melhor seria se guardado e deixa-se levar pela corrente maldosa da fofoca.  O fundamental é estabelecer os limites e não fazer da meta  do seu dia estragar o dos outros.
Ninguém é imune e quem tem os pés descalços não pode, nem deve,  lançar espinhos pelo chão porque irá fatalmente ser espetado por vários deles. Como são desagradáveis as pessoas que criticam sem critério algum  e, não sei se por inveja ou auto-afirmação, julgam-se melhores por um ou dois motivos bem relativos. Não há justificativa para a intolerância, o preconceito e a falta de respeito.
O maior dos perigos não é o que oferece a cor ou calor do fogo, nem a vertigem do abismo, nem a confusão do trânsito, é aquele responsável pela intolerância e exclusão.Portanto, antes de apontar para alguém, cogite a sensação de ser você mesmo o alvo de um crítica grosseira e saiba que quando você menos esperar, alguém terá você como o centro de várias gargalhadas repletas de maldade e injustiça.  

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Morre, mas não termina.

          Cresci escutando e lendo nos jornais sobre uma personalidade que logo foi rotulada como símbolo do terror que se espalhou rapidamente pelo mundo. Quando o mundo assistiu perplexo à queda das torres que representavam a altura que uma nação havia atingido e pessoas morriam perante aos nossos olhos, mergulhando nossas mentes em um rio de sangue de inocentes, foi a vez de culpar e perseguir alguém em nome da "justiça dos homens."
          Devidamente exterminado, o acusado morto é um troféu exibido àqueles que não acreditavam que o mesmo pudesse ser alcançado. Entregue a encomenda, o mundo respira aliviado, ou pelo menos deveria se não fosse o fato de saber que a vitória da paz está longe de acontecer. Desde a Antiguidade, o homem aprendeu a lavar sangue com sangue e na base do "olho por olho, dente por dente" a humanidade está ficando cega e já encomenda, vaidosa que é, as dentaduras. A morte de alguém, quer seus opositores queiram ou não, tão influente,  será mais motivo para tragédias. E todos sabem disso pois comemoram se contorcendo de medo.
         Não defendo ninguém, pois todos estão longe de serem exemplos de bondade e amor ao próximo, pelo contrário, por mais que pareçam a uns e outros os heróis da atualidade, não merecem e nem devem ocupar um lugar junto às almas preciosas dos heróis de todos os tempos.
         O conceito é que está distorcido, afinal, terror não é apenas o que se faz em larga escala, ameaçando povos inteiros, exterminando raças, pregando o fanatismo e incentivando guerras. Terror é também privar crianças da educação e forçá-las a trabalhar, é tirar a dignidade de pessoas que não têm mais idade para erguê-la sozinhas, é impedir alguém especial de ter uma vida normal, é acusar inocentes, punir gente honrada, impedir a liberdade de expressão. Terror é aceitar que ele se espalhe, ficando de braços cruzados enquanto seu semelhante é atingido.
        Terror é deixar que o fanatismo guie os homens, que a interpretação de alguns se apodere do pensamento e das ações de uma grande maioria. É deixar que a ambição pelo poder, pela chance de dominar o mundo, seja maior do que a oportunidade de exercer os direitos a que todos têm, dentre eles e primeiramente à vida. É o terror com o qual convivem todos os que ainda se mantém vivos e sabem que a morte do seu mais recente ícone não servirá para um final feliz.