domingo, 30 de janeiro de 2011

Despedida

        Em uma mesa de restaurante, numa sexta à noite, encontrava-se uma turma de recém formados no Ensino Médio.Lá estavam pessoas que provavelmente nunca mais se reunirão por completo, sempre haverá alguém que se casou, outro que está no exterior, o que está com problemas na família, a que empreendeu uma viagem sem volta, o que se dedica exclusivamente à carreira e, claro, os que simplesmente perderam a vontade de se rever.
        É triste, sim, porém inevitável. A separação vai acontecer, pois cada um vai seguir o seu caminho, no início de mãos dadas, mas os objetivos sendo diferentes, as rotas também serão e então cada qual seguirá a sua. Nessa última reunião, uma já não pôde comparecer, estava viajando para prestar uma prova de vestibular no outro lado do país. Os demais colegas estão rindo, lembrando-se dos dias da escola, das bagunças que aprontaram, da cara dos professores - sentindo saudade de uns e dando graças a Deus por não terem que aturar outros. Tiram fotos para guardar para sempre e repetem os apelidos, fazendo graça com a cara de um e de outro, "desejando mal a quase ninguém".
       Não há mais o que esconder, o que não for dito nessa noite, pesará para sempre na consciência. Percebendo isso, muitos pedem desculpas pelo que fizeram; outros demonstram opiniões que guardaram por muito tempo; todos se surpreendem com as declarações que saem na mesa, principalmente as de amores platônicos e as confidências de namoros escondidos no pátio do colégio que nunca mais frequentarão.
       Aquela baixinha tem ares de decidida, não demonstra arrependimento por nada e está de malas prontas para um intercâmbio do qual, por certo, nunca mais voltará. O garoto ao seu lado, a olha com ternura e sabe que se encontrarão só pelos sonhos e já conseguiu emprego na área que escolheu. A amiga que sempre se deu bem com todos está em lágrimas incontroláveis por ser a primeira a ir embora, na madrugada seguinte, para o início de uma nova vida, na qual não estará o namorado de muito tempo que tenta consolá-la com a promessa de que ainda se reencontrarão.
      As melhores amigas da vida inteira pela primeira vez se separarão, mas levam na bagagem cada minuto que dividiram, os segredos que confidenciaram e a confiança que sempre depositaram umas nas outras e prometem que continuarão juntas, apesar da distância.
      O orador da turma trouxe uma cópia do seu discurso de formatura para cada um com a finalidade de fazê-los levar consigo suas palavras, e com elas, um pedaço de tudo o que viveram. A esbelta da esquerda admira mais uma vez os olhares de seus colegas e se concentra nas vozes, para não perdê-las durante as viagens que fará na futura profissão. Os que escolheram ser médicos brindam a aprovação em diferentes universidades do país, mas nem todos tiveram a mesma sorte. Alguns enfrentarão um ou mais anos de cursinho antes de irem atrás do sonho.
      Os futuros advogados ensaiam suas atuações e o que seguiu a carreira de economia já calculou o preço da comemoração para cada um. Quem sempre gostou de língua portuguesa decidiu cursar comunicação e conseguiu estágio em um pequeno veículo que já dá muito orgulho. O melhor aluno da classe ainda tem os olhos inchados devido horas e mais horas dedicadas à leitura e ao estudo, mas agora comemora sua vaga garantida. A mais festeira parou a farra para levar a futura profissão a sério. O Dom Juan  de sempre ficou solteiro por livre e espontânea pressão dos pais quanto ao resultado das provas. 
       As lágrimas verteram-se quando alguém sugeriu um minuto de silêncio em homenagem aos colegas que nem tiveram a oportunidade de continuar trilhando seus caminhos, vítimas de um acidente alguns dias antes da formatura. Quem se mudou no meio do ano, também teve sua homenagem nas lembranças que deixou.
       Ninguém teve coragem de ir embora e quando finalmente um se levantou,todos se abraçaram aos gritos e promessas de nunca se esquecerem. Pela última vez, admiraram com todo o carinho os olhares de quem por muito tempo foi presença constante, mas que estava prestes a se transformar em doce e pura lembrança.
       O ambiente foi tocado pelo espírito de união daquela turma e da vontade visível que tinham de voar sem largar os que um dia compartilharam o ninho. Paciência. Precisam ir embora por mais doloroso que seja, mas antes a mais tímida deles se lembrou do que um dos professores lhes disse ao citar Fernando Sabino: "De tudo restaram três coisas: a certeza de que estamos começando, a certeza de que precisamos continuar e a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar."
        E lá se foi mais uma turma que em comum, daqui a alguns anos, só terá algumas fotos de momentos inesquecíveis e a faixa de largada para a corrida do destino.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Amigas

-Isso pra mim significa desistir e eu não sou o tipo de garota que faz isso.
-Primeiro: eu não concordo com "tipos de garotas", rótulos não funcionam em pessoas porque nós não estamos à venda em prateleiras e definir alguém com fogos de artifício na alma não se resume a etiquetas.
-Ok, então minha personalidade não me permite desistir do que eu quero.
-Tudo bem, não desista! Mas, pelo menos, destrua essa ilusão.
-Não é ilusão! Um dia poderemos ficar juntos.
-Sim, poderão se casar, montar no cavalo branco, morar no castelo da Cinderela, ter muitos filhinhos e viver felizes pra sempre!
-Do jeito que você diz. eu pareço uma criança sonhando.
-Eu não quero dizer que você seja criança, até por que criança não tem os seus sonhos. Mas, por favor, nada me incomoda mais do que vê-la esperando alguém que não tem a menor pretensão de chegar.
-Mas ele disse...
-O que uma pessoa diz não é exatamente o que ela faz. Eu não quero que se machuque, embora cada vez mais isso seja inevitável e a única saída para perceber que está mergulhada num sentimento que só existe pra você.
-Eu tento, você sabe, tento mesmo tocar minha vida, mas parece, como disse uma amiga sua outro dia, que quando tenta esquecer, você começa a sentir falta. E a falta dói, a ausência machuca, enquanto a presença acalma!
-Presença? Que presença? A de alguém que só sabe que você existe quando lhe convém?
-Falando assim, você me ofende.
- Eu não quero ofendê-la, só quero ficar com a consciência limpa. Não conseguiria ser considerada sua amiga enquanto vejo você sofrer sem falar nada.
-Eu confio em você como minha amiga.
-Por isso mesmo, eu estaria traindo sua confiança se não tentasse abrir seus olhos.
-E o apoio incondicional a que tanto você se refere?
-Apoiar é uma coisa, passar a mão na cabeça, fazer vista grossa e fingir que não há nada que possa machucá-la,é outra.
-Eu sei que você diz isso pra me proteger.
-Que bom que você sabe, porque é exatamente com este objetivo: proteger a sua vida de tanta imaginação. Eu também já passei por isso, sou uma romântica e meia, mas a diferença entre se iludir e se apaixonar é gigantesca.Começa com o simples fato de ser correspondida e considerada. Quando os seus sentimentos começam ter algum sentido pra essa pessoa, você está sendo antes de mais nada, respeitada.Seus sentimentos valem muito mais do que umas dezenas de quilômetros podem separar, basta que ambos estejam a fim.
-Eu estou.
-Ambos, isso significa provas concretas, não uma dúzia de declarações à distância.
-Eu sei: prometer é muito fácil, difícil é cumprir.
-Somos muito jovens, ainda temos muito tempo pela frente, mas isso não significa que podemos gastar toda uma fase de nossa vida presas a pessoas que nós arquitetamos como perfeitas, porque elas não são, ninguém o é.
-E se ele realmente for perfeito pra mim?
-Ninguém é perfeito. O amor é cego...
-Mas minhas amigas, não!
-Pois é. Eu estarei aqui, sempre.
-Você nunca me deixa fazer bobagens.
-Eu só não poderia  vê-la tomando a direção do abismo e não fazer nada. Conte comigo, sempre que quiser ouvir a verdade, mesmo que algumas vezes ela seja dura demais e possa incomodar um pouco.É a unica coisa que eu garanto.
-Você vê o que os outros não conseguem.
-A maioria consegue, mas por medo ou por achar que não lhe diz respeito, simplesmente ignora. Eu não sou a sua amiga que melhor a consola, passa a mão em sua cabeça ou  sempre lhe dá razão. Desculpe-me se, às vezes, sou ríspida, talvez intransigente, por favor, não me entenda mal, só quero deixar de ser mais uma que vê, mas não fala. Realmente, me desculpe, se alguma palavra minha alguma vez a feriu. 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Elas em mim

Eu gostaria de ter...
A doação de uma mãe;
A coragem de uma guerreira;
O coração de uma avó;
A alegria de uma princesinha;
A persuasão de uma cabeça-dura;
O talento de uma atriz;
A garra de uma torcedora;
A dedicação de uma bailarina;
O bom-senso de uma observadora;
A imaginação de uma sonhadora;
A concepção de uma experiente;
O entusiasmo de uma iniciante;
A emoção de uma apaixonada;
A féde uma religiosa;
O sorriso de uma tímida;
A responsabilidade de uma mestra;
A confiança de uma empreendedora;
O espírito de uma audaciosa;
A doçura de uma romântica;
A razão de uma cética;
O ombro de uma amiga;
A rapidez de uma crítica;
A esperteza de uma competente;
O livro de uma conselheira;
A música de uma artista;
A indignação de uma honesta;
O sucesso de uma batalhadora;
A força de uma aventureira;
A simplicidade de uma elegante;
Eu queria ter todas essas mulheres, que se alternam em fortes e frágeis,  em mim. Mas como são muitas e intensas, vou variando-as e me torno uma única que devagar conhece o mundo enquanto tem escolhas a fazer e caminhos a tomar sem deixar de lado nenhuma dessas mulheres que constroem minha personalidade.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Idade

Para muita gente, ser velho é ter cabelos brancos, marcas de expressão, corpo dolorido e uma certa bagagem emocional e física. Ainda para as mesmas pessoas, ser jovem é deixar os cabelos tingidos ou naturais soltos ao vento, ter uma pele marcada por efeitos dos  hormônios e um corpo que aguenta todas as maratonas da idade.
É engraçado, pois mesmo tendo uma pele que dizem ser de pêssego, cabelos escuros sem qualquer sombra de fios brancos e um corpo, fora sim dos padrões de beleza, mas saudável e relativamente resistente, várias pessoas que me conhecem, me tratam como uma velha e têm a plena convicção de  que sou madura o bastante para ser respeitada como alguém que já viveu muito.
Com essa errônea ideia, acabam ignorando muito do que eu falo e o que é pior, a grande maioria dos meus sentimentos com a desculpa "ela é madura ao ponto de não sofrer  por essa bobagem" e "não, ela tem mais o que fazer além de  ouvir isso" ou "não é do interesse de alguém como ela" e assim, todos se esquecem de que estou na primeira metade da segunda década de minha existência, quando o que não falta são questionamentos, dúvidas torturantes do início da oração até o ponto de interrogação.
Não sou uma jovem imatura que sonha com um príncipe encantado e passa horas na frente do espelho montando diálogos, caras e bocas enquanto o espera chegar em seu carro importado conversível (já que o cavalo é meio de transporte ultrapassado, branco então só no haras que o bonitão mantém com sua fortuna) e cujo maior sonho é um cartão ilimitado para bolsas,  sapatos, roupas e acessórios caríssimos. Ainda não sou a senhora durona, conservadora e metódica que ignora a felicidade dos outros sendo rabujenta o bastante para despertar nas pessoas um ar camuflado de respeito, que no fundo é puro isolamento.
Tenho um pouco de cada e um tanto de tudo: moleca, determinada, emotiva, contida, atrapalhada, extrovertida, sincera, mal-humorada, romântica, perfeccionista, corajosa, desorganizada, eficiente, retardada, religiosa, indiferente, sarcástica, exigente, atrapalhada, carinhosa e preocupada.
A idade não importa porque, no fundo, não está na pele, no couro cabeludo, na certidão de nascimento ou no conceito dos outros. Temos a idade de nossas atitudes. Maturidade ou imaturidade são conceitos que se definem por ações e reações e não simplesmente pela primeira palavra que sai da boca de alguém no momento que você o conhece.
Defendo a ideia de Martha Medeiros de que "tenho milhões de dias pela frente para aprender a ser jovem", a conservar um espírito inconformado, sem pressa de se tornar só e a não passar pela vida sem enxergar muito do que apenas a experiência pode mostrar.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Irmamente

"Eu sou totalmente partidária da discrição, da economia de detalhes sobre a vida privada, mas, em certos casos, confidenciar pode ser um belo exercício para eliminar toxinas e perder peso. Duas confidências por ano e a alma já fica mais sarada.
Na verdade, estou tentando convencer a mim mesma, pois sou a maior moita. Falo, falo e não conto nada. Escrevo pra desopilar um pouco, mas aquilo que existe de mais denso e secreto dentro de mim não revelo  sob tortura e nem sob pagamentos de direitos autorais. Dificilmente procuro amigos para abrir o coração. Raramente choro na frente dos outros... Decididamente não sou generosa comigo mesma. Neste ano que inicia, vou tentar repartir mais. Chega de ser ímpar, de querer resolver tudo sozinha, de privar os outros da minha parte que dói."

Martha Medeiros

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Anjo de quatro patas

  
   Sinto que tenho a obrigação de  agradecer àquele que dedicou sua vida a cuidar da minha.
   Ele não foi um São Bernardo, estrela de filmes imortalizados nem teve sua história registrada em livro sucesso no mundo todo, como Marley. Foi apenas o cão que, por treze anos, pude chamar de meu, assim que aprendi a falar e o que estava presente nos desenhos em que eu e minha irmã, ainda pequena, retratamos nossa  família.
   Não vivenciou grandes acontecimentos, mas  os suficientes para demonstrar toda sua fidelidade, verdadeira devoção em nos proteger. Lembro-me de todas as noites que ele deixou de dormir fazendo sua ronda para nos garantir um sono tranquilo; das vezes que não foram poucas em que estive doente e ele ficou todo o tempo embaixo da minha janela, enquanto eu respirava com dificuldade; de quando ele mordeu minha mãe e ficou por meses sem olhar diretamente pra nós; de sua recepção eufórica na porta da garagem; dos lençóis mordidos quando seus então pequenos dentes começaram a nascer; de como eu precisava esconder as bolas que amava estourar; da forma como ele usava o próprio corpo para impedir que minha irmã, ainda bebê, saísse de casa ou quando a escutava chorar e latia para chamar nossa atenção; de seu faro certeiro; do latido que com o tempo ficava mais rouco, sem nunca deixar de impor respeito e de sua postura imponente.
    Quem me conhece sabe que não fui a pessoa mais próxima a ele por causa de minha alergia por seus pelos, mas fui, de longe, a mais protegida.Por exemplo, quando minha mãe tentou me bater e eu corri para ele que, exercendo sua função de guardião, levantou as orelhas e não a deixou aproximar-se, enquanto nós duas não nos acalmamos.
   E mesmo que tenhamos reclamado por mais de uma vez do trabalho natural que um cão exige, todos nós o amávamos e confiávamos a seu majestoso porte nossas vidas em cada dia e noite que ele dedicou a conferir os movimentos, sons e luzes que viessem de nossa casa.
   Se em algum momento ele falhou,  foi quando não pôde mais controlar os efeitos do tempo, sem contudo, deixar de demonstrar sua força, grandeza e garra.
   Colt era mais leal do que seu coração podia suportar e será mais duro do que nunca, voltar pra casa e não ser recebida por aquele animal imenso e obediente, com o brilho dos olhos que só os mais amados dos seres possuem.
   "Lealdade: qualidade de cachorro que nem todo ser humano possui." Quantos sábios", neste mundo, não deveriam ser tão nobres e responsáveis como esse grande "irracional" que por anos participou da vida de nossa família, assegurando-nos a felicidade de um verdadeiro anjo-da-guarda e protetor.
   Só tenho a dizer: Obrigada, meu amigo, por toda a sua vida.