quarta-feira, 20 de julho de 2011

Verdade de amiga

A verdade é o melhor caminho, nem sempre o mais fácil, mas o mais indicado. É necessária pois combate  ilusões e mentiras, os amortecedores preferidos  da realidade. Mas dói e como dói.
 Verdade dita por amiga é pior do qualquer dor física, deixa a tortura chinesa no chinelo, arruína todo e qualquer vestígio de falsidade. Mas só faz tamanho estrago quando dita por amiga verdadeira, daquelas prontas para aplaudir e estapear sempre que a situação exigir, que pode arriscar toda a convivência no exercício de sua maior qualidade: a sinceridade que só quem mais conhece é capaz de decifrar seus gestos e interpretar seus movimentos, tem autoridade para usufruir.
              Quando você está no fundo do poço, mergulhada na gula ou derretida de desânimo, lá vem sua mandona preferida dizer que claro, você tem todo o direito de ficar triste como qualquer ser humano, mas não precisa dramatizar as coisas ao ponto de viver escorada naquela decepção. Quando uma ilusão acaba de ser destruída e os resquícios dela ainda fazem estragos imensos em sua mente conflituosa que não enxerga sentido em nada, há quem arrisque ser estapeada, mas prossegue na tentativa de mostrar-lhe que o mundo não vai acabar porque seus sonhos foram por lágrimas abaixo. Quando você está quieta e mal-humorada, distribuindo grosserias, ela chega e lhe diz meia dúzia de palavras que mostram o quão ridícula você está sendo e o pior é que faz isso de um modo que não há escolha senão admitir que ela tem razão. Quando você faz ou diz aquela bobagem do tipo pior e mesmo que a atinja, ela vem explicando os motivos pelos quais você está errada, é capaz de lhe perdoar e, de brinde, oferece colo para o seu arrependimento. Quando você está explodindo de felicidade, não consegue nem respirar tamanha a realização, ela está pronta para lhe incentivar a aproveitar essa sensação e participar dela como parte importante que é. Quando você vence é ela quem fica na primeira fileira para aplaudir de pé sua conquista e sorri com os olhos cúmplices que tem. Quando chove é com ela que você divide um minúsculo guarda-chuvas. Quando nada inspira sua imaginação é ela quem oferece um livro, uma música ou um filme e principalmente a companhia que preenchem sua solidão.  Quando você cai é ela quem lhe estende a mão, obviamente relembrando que avisou quinhentas e cinquenta e cinco mil vezes sobre a possibilidade da queda.
                Aliás, amiga que é amiga tem disto: é capaz de remediar depois de tentar prevenir; abaixa a cabeça na hora certa, mas encara com coragem quando preciso; escuta com paciência e não tem medo de usar palavras que possam ferir; empurra com força quando você precisa sair do lugar e acolhe com ternura quando o fardo é muito pesado; procura – e acha- as agulhas mais raras no palheiro de seus sentimentos e pode decifrá-los com a mesma habilidade com que não poupa seus tímpanos de seus sermões intermináveis. Entretanto, sem a menor dúvida, a amiga cuja verdade é mais preciosa é aquela que continua lutando pela sua causa mesmo que você mesma tenha declarado a guerra perdida, aquela que não desiste mesmo que todo mundo já o tenha feito e acredita na mais remota possibilidade de ajudar.
                Amiga para valer é aquela que passa anos sem lhe ver, mas continua decifrando seus pensamentos, conhecendo seus gostos e manias tão bem como se fosse companhia diária. Aquela que sente saudades, mas não deixa que o passado consuma seu tempo e, por isso tem o trabalho de arquitetar com você planos para um futuro incerto. Aquela que mesmo com personalidade tão diferente, aceita e respeita a sua sem lhe agredir.
Não é regra que uma mulher tenha sempre uma melhor amiga, há as que tenham melhores amigos tão leais e verdadeiros. Acontece que entre amigas há uma cumplicidade, uma correspondência tamanha e uma sensibilidade tão grande que, do berçário ao fim da vida, pelo menos uma completará suas frases e vários momentos de sua existência. É o que chamam de “universo feminino”e no fundo, não passa de cumplicidade.
A cumplicidade que faz uma confiar seus segredos à outra e torna-as capaz de cicatrizar as feridas mais inflamadas, amenizar as dores mais latejantes e consolar os choros mais desconcertantes, além de ligar no meio da madrugada para contar um sonho ou um acontecimento que não puderam esperar até o dia seguinte para serem compartilhados.
Amigas podem ser mães, parentes, primas, avós, tias, escritoras, leitoras, colegas, aquelas que mereçam ser chamadas de irmãs e provem que a intenção é e sempre será vê-la feliz, mesmo que para isso precisem magoá-la, dizer-lhe umas verdades que a princípio machuquem e depois clareiem sua visão, mas acredite: essa não é apenas a intenção, é o motivo pelo qual podem ser chamadas de MELHORES.   

terça-feira, 12 de julho de 2011

Reencontro

        Melhor do que receber presentes, é receber pessoas que são, por si só, presentes. Quando o coração já começa a se habituar ao aperto que ficou depois que levaram um pedaço dele, só mesmo um reencontro para fazê-lo voltar ao seu estado normal.
        Aquele abraço que nunca deixou de ser especial, aquele perfume que jamais saiu de sua blusa de frio, aquela voz que não saiu do seu ouvido e aquela imagem que continuava guardada em sua mente voltam de repente e invertem o passado em ação mais-que-presente. Nem tudo está igual: coisas aconteceram, pessoas apareceram, lições foram aprendidas e o que não falta é novidade a ser compartilhada! Como se o tempo houvesse congelado e aquele abraço no meio do pátio derretesse a saudade e a vontade de rever.
        O reencontro é a esperança da saudade, o objetivo da partida, a vontade do coração e o bálsamo da razão. Saber que alguém especial voltou, mesmo para ficar um instante, é conseguir vencer o desafio da distância e do tempo e provar que mesmo esquecendo a canção, há uma voz muito mais forte que canta em sinfonia com a amizade, o companheirismo, a lealdade, os sentimentos mais nobres de afeto e nunca será abafada por qualquer empecilho que o destino reserve. Sempre e em qualquer lugar, quem a amizade uniu, ninguém separará.
        

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Solucionar?

       Minha fralda era descartável, minha mãe era cozinheira de primeira viagem, não aprendi a andar de bicicleta, minha casa tinha tudo o que fosse quebrável, nunca apanhei na vida, assistia só Castelo-Rá-TIm-Bum, aprendi o Hino Nacional, o da Independência e o da bandeira antes das músicas da Xuxa, a água menos filtrada que bebi vinha da bica de uma fazenda e o fato de ter passado meu fundamental todo excluída e procurando me localizar em minha turma, sendo considerada "diferente" pela maior parte deles não implica que eu seja revoltada ou use isso para justificar todos os meus erros ou problemas. A questão é, até quando a super-valorização de um conceito (no caso o bullying, ou a super-proteção, enfim) não tira o seu real entendimento? E aplicação?
       Muito se anda falando sobre quanto o meio onde uma criança é criada interfere no modo como ela vai ser quando crescer. É fato que isso acontece, mas será mesmo o ambiente fator decisivo para a personalidade e as atitudes de alguém? Dizer que não é desconsiderar que a maioria dos criminosos teve nenhum, ou o pior, tipo de estrutura familiar. Dizer que sim é praticamente concordar que qualquer morador de uma favela onde o tráfico reina é um marginal. Nem um, nem outro. O meio influencia sim, mas não impede que uma boa índole, para não cair no sentimentalismo e dizer bom coração, se manifeste.
      Os casos de pessoas que sofreram maus tratos durante a fase escolar e voltam para fazer da escola o cenário de verdadeiros desastres chamam a atenção de todos para os problemas da infância. Perdoem-me se destruo uma ilusão, mas nem todas as infâncias são doces como a casa da bruxa da história de João e Maria. Há quem teve uma escola em péssimas condições, com professores incapazes e colegas cruéis e nem por isso tenha matado alguém ou impedido que os filhos frequentassem a escola. Há quem nem estudar pode já que deixou a infância embaixo de um pé de café, na lâmina de um facão, no forno de carvão, no peso da lata d'água ou no calor do fogão e nem por isso assassinou inocentes. Fazer da tragédia a consequência de apenas uma coisa está longe de ser convincente, é justificar um drama com outro.
      Justificativas existem quando não há profilaxia. Já vigora o ditado que é preferível prevenir do que remediar, mas justificar é muito mais fácil, colocar a culpa nos outros, então, é como calçar o Pequeno Polegar com uma bota número 43: mais conveniente esconder o problema do que moldar uma solução e trabalhar para ela.
      O problema está em percebê-lo, diagnosticá-lo e simplesmente apelar para uma coisa que poucos tem e menos ainda utilizam, a consciência, esperando que, em um gesto de integridade, tudo se resolva, ao invés de ações efetivas que o solucionem. Caso eu esteja sonhando e sendo ingênua ao acreditar que procurar sanar os males é melhor do que fornecer manchete para jornal e tema para debates que vão do nada a lugar nenhum, peço que continuem esperando a próxima erupção de um vulcão chamado caos e torço para que as larvas dele não derretam os últimos escrúpulos que insistem em prevalecer.