A verdade é o melhor caminho, nem sempre o mais fácil, mas o mais indicado. É necessária pois combate ilusões e mentiras, os amortecedores preferidos da realidade. Mas dói e como dói.
Verdade dita por amiga é pior do qualquer dor física, deixa a tortura chinesa no chinelo, arruína todo e qualquer vestígio de falsidade. Mas só faz tamanho estrago quando dita por amiga verdadeira, daquelas prontas para aplaudir e estapear sempre que a situação exigir, que pode arriscar toda a convivência no exercício de sua maior qualidade: a sinceridade que só quem mais conhece é capaz de decifrar seus gestos e interpretar seus movimentos, tem autoridade para usufruir.
Quando você está no fundo do poço, mergulhada na gula ou derretida de desânimo, lá vem sua mandona preferida dizer que claro, você tem todo o direito de ficar triste como qualquer ser humano, mas não precisa dramatizar as coisas ao ponto de viver escorada naquela decepção. Quando uma ilusão acaba de ser destruída e os resquícios dela ainda fazem estragos imensos em sua mente conflituosa que não enxerga sentido em nada, há quem arrisque ser estapeada, mas prossegue na tentativa de mostrar-lhe que o mundo não vai acabar porque seus sonhos foram por lágrimas abaixo. Quando você está quieta e mal-humorada, distribuindo grosserias, ela chega e lhe diz meia dúzia de palavras que mostram o quão ridícula você está sendo e o pior é que faz isso de um modo que não há escolha senão admitir que ela tem razão. Quando você faz ou diz aquela bobagem do tipo pior e mesmo que a atinja, ela vem explicando os motivos pelos quais você está errada, é capaz de lhe perdoar e, de brinde, oferece colo para o seu arrependimento. Quando você está explodindo de felicidade, não consegue nem respirar tamanha a realização, ela está pronta para lhe incentivar a aproveitar essa sensação e participar dela como parte importante que é. Quando você vence é ela quem fica na primeira fileira para aplaudir de pé sua conquista e sorri com os olhos cúmplices que tem. Quando chove é com ela que você divide um minúsculo guarda-chuvas. Quando nada inspira sua imaginação é ela quem oferece um livro, uma música ou um filme e principalmente a companhia que preenchem sua solidão. Quando você cai é ela quem lhe estende a mão, obviamente relembrando que avisou quinhentas e cinquenta e cinco mil vezes sobre a possibilidade da queda.
Aliás, amiga que é amiga tem disto: é capaz de remediar depois de tentar prevenir; abaixa a cabeça na hora certa, mas encara com coragem quando preciso; escuta com paciência e não tem medo de usar palavras que possam ferir; empurra com força quando você precisa sair do lugar e acolhe com ternura quando o fardo é muito pesado; procura – e acha- as agulhas mais raras no palheiro de seus sentimentos e pode decifrá-los com a mesma habilidade com que não poupa seus tímpanos de seus sermões intermináveis. Entretanto, sem a menor dúvida, a amiga cuja verdade é mais preciosa é aquela que continua lutando pela sua causa mesmo que você mesma tenha declarado a guerra perdida, aquela que não desiste mesmo que todo mundo já o tenha feito e acredita na mais remota possibilidade de ajudar.
Amiga para valer é aquela que passa anos sem lhe ver, mas continua decifrando seus pensamentos, conhecendo seus gostos e manias tão bem como se fosse companhia diária. Aquela que sente saudades, mas não deixa que o passado consuma seu tempo e, por isso tem o trabalho de arquitetar com você planos para um futuro incerto. Aquela que mesmo com personalidade tão diferente, aceita e respeita a sua sem lhe agredir.
Não é regra que uma mulher tenha sempre uma melhor amiga, há as que tenham melhores amigos tão leais e verdadeiros. Acontece que entre amigas há uma cumplicidade, uma correspondência tamanha e uma sensibilidade tão grande que, do berçário ao fim da vida, pelo menos uma completará suas frases e vários momentos de sua existência. É o que chamam de “universo feminino”e no fundo, não passa de cumplicidade.
A cumplicidade que faz uma confiar seus segredos à outra e torna-as capaz de cicatrizar as feridas mais inflamadas, amenizar as dores mais latejantes e consolar os choros mais desconcertantes, além de ligar no meio da madrugada para contar um sonho ou um acontecimento que não puderam esperar até o dia seguinte para serem compartilhados.
Amigas podem ser mães, parentes, primas, avós, tias, escritoras, leitoras, colegas, aquelas que mereçam ser chamadas de irmãs e provem que a intenção é e sempre será vê-la feliz, mesmo que para isso precisem magoá-la, dizer-lhe umas verdades que a princípio machuquem e depois clareiem sua visão, mas acredite: essa não é apenas a intenção, é o motivo pelo qual podem ser chamadas de MELHORES.