Mostrando postagens com marcador amizade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador amizade. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Regresso

        Nada melhor que o nosso canto. O de gente que amamos também é bom, é ótimo. Mas o nosso cheiro, aquele jeito de colocar os livros sobre a estante, o labirinto do próprio armário, a bagunça das gavetas e a clássica diferença de apertar o tubo de creme dental são os mais puros reflexos da tão querida privacidade. Privacidade para dormir com aquele pijama velhinho, acordar e sair com o cabelo embaraçado, comer com os pés na cadeira da frente e outras coisas que a boa educação não deixam fora de casa.
       Chegar depois de um longo e conturbado período fora de casa, foi, no mínimo, um conforto. Só que enfiei na cabeça que não valia apenas voltar, eu precisava deixar ir.E dessa vez não era só porque achei bonito o texto do Fernando Pessoa, aquele que diz que tudo o que chega, chega sempre por alguma razão. Nem o do Caio Fernando de Abreu que afirma estar se livrando de um monte de coisas, ou qualquer outro que mande esvaziar as gavetas e outros dispositivos que só servem para acumular. Eu senti uma necessidade imensa. "Adeus, ao acúmulo." Minha primeira meta para ter um ano diferente.
       Resultado? fiz uma faxina de deixar minha mãe, a pessoa mais caprichosa da face da Terra, boquiaberta. Eu literalmente me livrei de coisas que simplesmente não se encaixavam mais em mim. "Ah, porque isto aqui foi fulana que me deu." Ela não fica menos importante se eu não o tiver mais. "Esta coisa foi ciclano que me mandou não sei de onde." Obrigada, ciclano, mas já deixou de me servir há tempos. E a que mais usava: "Guardei tal coisa para me lembrar de tal ocasião" Quer saber? Se foi mesmo tão importante, não é algo material que vai me impedir de esquecer.
       Missão cumprida! E altamente recomendada. Além de doar para quem não tem, que é algo muito importante para quebrar a rotina do consumismo a que estamos rodeados, é um ato de caridade para si mesmo: ufa! Não somos Atlas para carregar o mundo nem nas costas, nem nos armários. Ganhou algo novo? Despeça-se do antigo, o que não significa esquecê-lo, mas sim deixar no devido lugar,que é o passado. Passou, foi legal, você se divertiu, se emocionou, conheceu alguém especial, agora, ficar acumulando e se agarrar a tudo isso, não traz nada de volta, aliás, só confirma como somos impotentes em relação ao curso do tempo.
       E quanto ao título acima, melhor trocá-lo para "Progresso".

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Amigas III

-O que foi aquilo?
-A parte dos gritos ou da porta batendo?
-Basicamente, o que foi aquele descontrole?
-A reação de uma pessoa normal e cansada?
-Até que enfim lembrou-se de ser normal. Estava faltando uma pitadinha de emoção!
-Emoção? Será que dá para levar a sério?
-Tudo bem, tudo bem... Chora, vai, pode chorar.
-O choro não vai resolver o problema.
-Nem tudo depende de você. Além do mais, o choro alivia o peso dos problemas.
-Mas não resolve!
-Eu vou precisar repetir que nem tudo está ao seu alcance?
-Não, mas... Eu não posso fazer como qualquer um, despejar adrenalina de vez em quando?
-É claro que pode. Aliás, você é hilária nervosa.
-Muito obrigada, foi super motivador...
-Vou tentar melhorar: vai fazer bem pra você despejar um pouco desse peso que carrega, relaxa!
-Não consigo, no momento só choro. E isso é tão...
-Normal! Todo mundo chora de raiva... Vai, alivia um pouquinho.
-Ainda bem que o seu colo existe!

sábado, 12 de novembro de 2011

Intenção

        Já não é a primeira vez que recorro a esse blog para lembrar a alguém que alegra minha vida, o quanto é importante. Minha real intenção seria colocar nesse seu coraçãozinho, as vezes tão apertado, que é querida, amada e valorizada por um monte de gente, que podem não ser as melhores pessoas do mundo, mas sim, seus verdadeiros amigos - antes de qualquer outra coisa.
        Gostaria de fazê-la entender como tem um sorriso lindo, que ilumina tudo por onde passa e que suas lágrimas também nos fazem sofrer, mais ainda, tentaria deixar o mais explícito possível, que a infelicidade, a tristeza, a vontade de sumir são inevitáveis, mas não devem ser constantes; que nem sempre as coisas saem como planejado, mas é aí que entra nosso desafio de mudar a rota, optar por uma saída e, literalmente, como bem sabe fazer, se esticar toda para alcançar o que quer, mesmo que em grande parte das vezes sinta-se limitada, presa, praticamente enclausurada, a única coisa que resta a fazer é acreditar que existe um modo de ser diferente.
         Repetiria milhões de vezes, embora já esteja na casa das centenas, que o amor próprio é algo que se deve estabelecer a cada dia, um esforço contínuo de aceitação dos defeitos e valorização das qualidades, porque só assim se pode ser amado por outra pessoa. Queria nunca deixá-la esquecer do valor que tem e dos amigos com quem pode contar.
         Eu sei que digo tudo isso sempre, e continuarei a dizer sem descanso, até que um dia as coisas que hoje a incomodam, passem a ser mais uma pedra em que se tropeça, machuca, com frequencia faz chorar, mas que serve - como nada mais o faz melhor - como aprendizado. Eu sei que é difícil, porque também acontece comigo, mas existem duas opções não-excludentes para se crescer: a primeira é se machucando, a segunda é acreditando em si mesmo e no bem que lhe queremos.

domingo, 21 de agosto de 2011

Amanhã é 22

        Amanhã é 22, são nove dias para o fim do mês. Faz tanto tempo que eu não o vejo, queria o seu beijo ao me ver chegar, antes de dormir, ao acordar, no meio do dia outra vez. Queria que aquela noite quando sentamos apenas nós dois para ouvir as músicas que gostamos nunca tivesse acabado...
       Queria estar perto, o suficiente para o ver mais, para demonstrar meu carinho além do telefone e me largar em seus braços com mais frequência. Queria roubar com você um pedacinho de doce antes do almoço, sair comendo escondido até o quintal e espalhar as migalhas pelas roseiras para não deixar pistas. Queria comer as frutas que descasca com todo o cuidado ou a carne que pica tão pequena como se meus dentes ainda fossem de leite. Queria ouvir o barulho do carro chegando e correr para abrir o portão, lembra-lo pela milésima vez de não entrar com os sapatos sujos em casa e ouvi-lo chamar pelo cachorro mais destrambelhado da face da Terra. Queria me sentar ao seu lado em todas as refeições e escutar sem pressa suas histórias, declamar os poemas que sabemos e gastar o tempo ao redor de uma mesa evitando que coma o que não deve.Eu queria muito cochilar com a cabeça em seus ombros todos os dias!
        Eu realmente gostaria que tivéssemos mais tempo juntos para que me ensinasse o que eu preciso saber, me fizesse rir com seus casos, me mostrasse o que é certo e errado e me instruísse pela vida com o que já sabe. É seu aniversário amanhã e sabe que ganha mais responsabilidade a cada ano: é responsável pelo sorriso que me arranca ao lembrar de você mesmo quando estou triste ou chateada, pela alegria que me dá ao saber que está bem, pela preocupação quando adoece, cai do cavalo, arrebenta a mão em um facão ou sai de madrugada sem agasalho!
        Nada disso, entretanto, é maior do que o dever que tenho de amá-lo, não por ter o posto de avô, mas por ser o MEU avô. E é exatamente por isso que mesmo que eu queira estar sempre perto de você, sei que não existe distância para nós, que você e vovó estarão sempre comigo aonde quer que estejamos.
        Feliz aniversário, vovô! Ah, e nunca será demais repetir o quanto sua florzinha o ama!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Verdade de amiga

A verdade é o melhor caminho, nem sempre o mais fácil, mas o mais indicado. É necessária pois combate  ilusões e mentiras, os amortecedores preferidos  da realidade. Mas dói e como dói.
 Verdade dita por amiga é pior do qualquer dor física, deixa a tortura chinesa no chinelo, arruína todo e qualquer vestígio de falsidade. Mas só faz tamanho estrago quando dita por amiga verdadeira, daquelas prontas para aplaudir e estapear sempre que a situação exigir, que pode arriscar toda a convivência no exercício de sua maior qualidade: a sinceridade que só quem mais conhece é capaz de decifrar seus gestos e interpretar seus movimentos, tem autoridade para usufruir.
              Quando você está no fundo do poço, mergulhada na gula ou derretida de desânimo, lá vem sua mandona preferida dizer que claro, você tem todo o direito de ficar triste como qualquer ser humano, mas não precisa dramatizar as coisas ao ponto de viver escorada naquela decepção. Quando uma ilusão acaba de ser destruída e os resquícios dela ainda fazem estragos imensos em sua mente conflituosa que não enxerga sentido em nada, há quem arrisque ser estapeada, mas prossegue na tentativa de mostrar-lhe que o mundo não vai acabar porque seus sonhos foram por lágrimas abaixo. Quando você está quieta e mal-humorada, distribuindo grosserias, ela chega e lhe diz meia dúzia de palavras que mostram o quão ridícula você está sendo e o pior é que faz isso de um modo que não há escolha senão admitir que ela tem razão. Quando você faz ou diz aquela bobagem do tipo pior e mesmo que a atinja, ela vem explicando os motivos pelos quais você está errada, é capaz de lhe perdoar e, de brinde, oferece colo para o seu arrependimento. Quando você está explodindo de felicidade, não consegue nem respirar tamanha a realização, ela está pronta para lhe incentivar a aproveitar essa sensação e participar dela como parte importante que é. Quando você vence é ela quem fica na primeira fileira para aplaudir de pé sua conquista e sorri com os olhos cúmplices que tem. Quando chove é com ela que você divide um minúsculo guarda-chuvas. Quando nada inspira sua imaginação é ela quem oferece um livro, uma música ou um filme e principalmente a companhia que preenchem sua solidão.  Quando você cai é ela quem lhe estende a mão, obviamente relembrando que avisou quinhentas e cinquenta e cinco mil vezes sobre a possibilidade da queda.
                Aliás, amiga que é amiga tem disto: é capaz de remediar depois de tentar prevenir; abaixa a cabeça na hora certa, mas encara com coragem quando preciso; escuta com paciência e não tem medo de usar palavras que possam ferir; empurra com força quando você precisa sair do lugar e acolhe com ternura quando o fardo é muito pesado; procura – e acha- as agulhas mais raras no palheiro de seus sentimentos e pode decifrá-los com a mesma habilidade com que não poupa seus tímpanos de seus sermões intermináveis. Entretanto, sem a menor dúvida, a amiga cuja verdade é mais preciosa é aquela que continua lutando pela sua causa mesmo que você mesma tenha declarado a guerra perdida, aquela que não desiste mesmo que todo mundo já o tenha feito e acredita na mais remota possibilidade de ajudar.
                Amiga para valer é aquela que passa anos sem lhe ver, mas continua decifrando seus pensamentos, conhecendo seus gostos e manias tão bem como se fosse companhia diária. Aquela que sente saudades, mas não deixa que o passado consuma seu tempo e, por isso tem o trabalho de arquitetar com você planos para um futuro incerto. Aquela que mesmo com personalidade tão diferente, aceita e respeita a sua sem lhe agredir.
Não é regra que uma mulher tenha sempre uma melhor amiga, há as que tenham melhores amigos tão leais e verdadeiros. Acontece que entre amigas há uma cumplicidade, uma correspondência tamanha e uma sensibilidade tão grande que, do berçário ao fim da vida, pelo menos uma completará suas frases e vários momentos de sua existência. É o que chamam de “universo feminino”e no fundo, não passa de cumplicidade.
A cumplicidade que faz uma confiar seus segredos à outra e torna-as capaz de cicatrizar as feridas mais inflamadas, amenizar as dores mais latejantes e consolar os choros mais desconcertantes, além de ligar no meio da madrugada para contar um sonho ou um acontecimento que não puderam esperar até o dia seguinte para serem compartilhados.
Amigas podem ser mães, parentes, primas, avós, tias, escritoras, leitoras, colegas, aquelas que mereçam ser chamadas de irmãs e provem que a intenção é e sempre será vê-la feliz, mesmo que para isso precisem magoá-la, dizer-lhe umas verdades que a princípio machuquem e depois clareiem sua visão, mas acredite: essa não é apenas a intenção, é o motivo pelo qual podem ser chamadas de MELHORES.   

domingo, 19 de junho de 2011

Explicação

       Apesar de não requerer nenhuma explicação, um choro deve ter algum motivo.
       Não, eu não chorei de tristeza porque todos os nossos risos não podem ser resumidos em lágrimas.
       Não, eu não chorei de saudade porque você nem tinha partido ainda e a saudade para mim deve ser comemorada pelo simples fato de ser sinônimo de amor.
       Não, eu não chorei de mágoa porque ela não existe entre nós.
       Não, eu não chorei de angústia por saber que ficarei longe de você, até porque a angústia não se encaixa na felicidade que todas as lembranças me trazem.
      Não, eu não chorei de medo pelo o que vai acontecer, porque sei que o futuro está além da minha alçada e nosso dever é apenas seguir o fluxo da vida.
      Não, eu não chorei de raiva porque estou me separando de uma pessoa especial, porque sei que você vai continuar em minha vida, nem que seja na memória.
      Não, eu não chorei de dor, apesar de meu coração estar se partindo, sabia que aquilo era uma ferida que só nossa amizade poderá fazer cicatrizar.
      Eu chorei, ainda estou chorando, porque minha consciência tomou partido da emoção e insiste em elaborar uma explicação racional e fundamentada de que não há nada mais inevitável do que a separação, de que as pessoas aparecem em sua vida, fazem a diferença e vão embora. Uma terrível sensação de não poder lutar contra isso, de saber que o momento chegaria mas nunca ter previsto quando, de insistir em acreditar que um dia seremos como no passado, porque, não, não seremos, afinal nos transformamos todos os dias e fugimos das próprias rédeas. Meu choro foi por tentar manter vivo o passado, mesmo sabendo que ele será substituído.

segunda-feira, 7 de março de 2011

A tristeza permitida

Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como? 

Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra. 

Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra. 

A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido. 

Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas. 

“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down...” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia. 

Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.



Martha Medeiros

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Amigas II

-Você vai, sim!!! Não precisa falar mais nada!
-Não! Eu não vou, não consigo e nunca vou conseguir!
-Olha lá, quem é que vive me falando que nada é impossível quando se coloca alma e coração?
-Essa frase é de um professor chinês, li em um livro, não fui eu quem inventei.
-Mas você a memorizou, e se fez isso, é porque se reconheceu. Vamos lá, pare de parecer mais teimosa do que realmente é.Você é doce demais pra isso.
-Eu não tenho o direito de não querer?
-O seu direito é não querer, não deixar de tentar.
-Mas e se eu não gostar?
-Não gostou, não gostou. Fazer o quê? Mas vai arrancar algum pedaço tentar?
-E se arrancar?
-Eu juro que não tira pedaço, não estou inteira até hoje?
-Você acha que eu vou fazer o que você - feito louca - faz?
-Primeiro: eu não sou louca, ok, não sob esse ponto de vista. Segundo: vai sim! Não hoje, nem amanhã, mas acho que você ainda tem um bocado de vida pela frente pra chegar onde quer, caso queira.
-Eu estou velha pra isso.
-Isso não saiu da sua boca, não da sua. Você mais que ninguém vive falando que nunca é tarde pra se fazer o que gosta! Você mesma tem planos ousados pra sua aposentaria e vem me falar de quanto tempo já se passou o suficiente pra você deixar de experimentar algo novo. Tenha dó!
-É completamente diferente!
-Diferente do que? De quem? Preste atenção: há muito o que se fazer, há muito o que se viver! Quem foi mesmo que disse que apesar de tudo, de todas as nossas reclamações e das tantas vezes que pensamos em desistir, viver vale muito a pena? Ah, é, acho que foi você. Pare de inventar desculpas, de adiar novas experiências, você nunca vai saber se não tentar! Agora vai, limpe esse rosto, prenda o cabelo, dê o primeiro passo. Os outros virão devagar, mas um dia você os fará sozinha.
-Vou ter que perder o medo.
-Não é questão de perder o medo, é de ganhar confiança em si mesma. Acredite que pode e conseguirá.Sob hipótese alguma, deixe que olhares a derrubem. Seja mais forte, tenha mais coragem do que aqueles que preferem criticar quando deveriam apoiar. Esqueça quem duvida de você, a única coisa com absoluto direito de condená-la é a sua consciência. E, sinceramente, ela já está um pouco pesada demais, por tanta coisa que guarda pra si mesma.Tente libertar-se um pouco, esqueça o que está a sua volta, pense mais em você...É o melhor modo de ajudar quem a ama.
-Tudo bem, caso não dê certo, poderá pelo menos servir de tema pra uma crônica.
-É assim que se fala! Confie em mim, amiga.
-Alguma vez deixei de fazer isso?
"A gente não faz amigos, reconhece-os."
(Vinicius de Moraes) 

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Amigas

-Isso pra mim significa desistir e eu não sou o tipo de garota que faz isso.
-Primeiro: eu não concordo com "tipos de garotas", rótulos não funcionam em pessoas porque nós não estamos à venda em prateleiras e definir alguém com fogos de artifício na alma não se resume a etiquetas.
-Ok, então minha personalidade não me permite desistir do que eu quero.
-Tudo bem, não desista! Mas, pelo menos, destrua essa ilusão.
-Não é ilusão! Um dia poderemos ficar juntos.
-Sim, poderão se casar, montar no cavalo branco, morar no castelo da Cinderela, ter muitos filhinhos e viver felizes pra sempre!
-Do jeito que você diz. eu pareço uma criança sonhando.
-Eu não quero dizer que você seja criança, até por que criança não tem os seus sonhos. Mas, por favor, nada me incomoda mais do que vê-la esperando alguém que não tem a menor pretensão de chegar.
-Mas ele disse...
-O que uma pessoa diz não é exatamente o que ela faz. Eu não quero que se machuque, embora cada vez mais isso seja inevitável e a única saída para perceber que está mergulhada num sentimento que só existe pra você.
-Eu tento, você sabe, tento mesmo tocar minha vida, mas parece, como disse uma amiga sua outro dia, que quando tenta esquecer, você começa a sentir falta. E a falta dói, a ausência machuca, enquanto a presença acalma!
-Presença? Que presença? A de alguém que só sabe que você existe quando lhe convém?
-Falando assim, você me ofende.
- Eu não quero ofendê-la, só quero ficar com a consciência limpa. Não conseguiria ser considerada sua amiga enquanto vejo você sofrer sem falar nada.
-Eu confio em você como minha amiga.
-Por isso mesmo, eu estaria traindo sua confiança se não tentasse abrir seus olhos.
-E o apoio incondicional a que tanto você se refere?
-Apoiar é uma coisa, passar a mão na cabeça, fazer vista grossa e fingir que não há nada que possa machucá-la,é outra.
-Eu sei que você diz isso pra me proteger.
-Que bom que você sabe, porque é exatamente com este objetivo: proteger a sua vida de tanta imaginação. Eu também já passei por isso, sou uma romântica e meia, mas a diferença entre se iludir e se apaixonar é gigantesca.Começa com o simples fato de ser correspondida e considerada. Quando os seus sentimentos começam ter algum sentido pra essa pessoa, você está sendo antes de mais nada, respeitada.Seus sentimentos valem muito mais do que umas dezenas de quilômetros podem separar, basta que ambos estejam a fim.
-Eu estou.
-Ambos, isso significa provas concretas, não uma dúzia de declarações à distância.
-Eu sei: prometer é muito fácil, difícil é cumprir.
-Somos muito jovens, ainda temos muito tempo pela frente, mas isso não significa que podemos gastar toda uma fase de nossa vida presas a pessoas que nós arquitetamos como perfeitas, porque elas não são, ninguém o é.
-E se ele realmente for perfeito pra mim?
-Ninguém é perfeito. O amor é cego...
-Mas minhas amigas, não!
-Pois é. Eu estarei aqui, sempre.
-Você nunca me deixa fazer bobagens.
-Eu só não poderia  vê-la tomando a direção do abismo e não fazer nada. Conte comigo, sempre que quiser ouvir a verdade, mesmo que algumas vezes ela seja dura demais e possa incomodar um pouco.É a unica coisa que eu garanto.
-Você vê o que os outros não conseguem.
-A maioria consegue, mas por medo ou por achar que não lhe diz respeito, simplesmente ignora. Eu não sou a sua amiga que melhor a consola, passa a mão em sua cabeça ou  sempre lhe dá razão. Desculpe-me se, às vezes, sou ríspida, talvez intransigente, por favor, não me entenda mal, só quero deixar de ser mais uma que vê, mas não fala. Realmente, me desculpe, se alguma palavra minha alguma vez a feriu.