Sete de maio foi dia do silêncio e justamente por isso, resolvi quebrar o meu nesse blog.
Comecei a rir quando percebi que minha tia estava prestes a bater o carro porque o meu silêncio a estava desesperando enquanto íamos de um lugar a outro. Ri porque achava que ele só incomodava a mim, mas quando de canto de olho vi que minha tia dirigia com um olho no trânsito e outro tentando descobrir o que aquele meu olhar fixo em lugar nenhum, o franzido na testa e as mãos na cabeça de uma menina mergulhada na falta de palavras queriam dizer, percebi que meu silêncio fala muito mais alto do que qualquer escândalo que eu possa fazer.
Já me acostumei. Mentira. Eu o acho tão irritante quanto música alta, gente inconveniente, livro maçante, coisas perdidas – principalmente aquelas que somem quando precisamos delas.Justamente porque ele fala alto demais comigo, ao ponto de me fazer calar, é inconveniente o suficiente para aparecer quando eu mais preciso descarregar o que guardo e sempre faz perder o que eu mais uso, as palavras que tanto estimo.
O meu silêncio é um baú que se tranca nos meus maxilares, ao ponto de enrijecer com tanta força os músculos de minha face e fazer com que eu não consiga falar. Quando eu me tranco, nada me faz largar o nó que se estabelece entre o meu raciocínio e minhas cordas vocais.
É então, com um nó na garganta e outro na cabeça,que minha imaginação faz tudo o que não deveria: funciona, coloca em prática todos os “ses”, “mases”, “quases”e porquês. Medos, desejos, expectativas, hipóteses, frustrações vêm à tona, mas não saem, continuam me afundando na falta de palavras.
Quem me conhece tagarela, disposta e curiosa não faz a menor ideia de que me recolho de forma tão assustadora, sim, porque é capaz de botar medo em qualquer um com a mínima inclinação para a comunicação, ainda mais para quem acha que o diálogo é a melhor forma de resolver as coisas, como eu, que ironicamente escolho, ou melhor, me imponho, intermináveis monólogos.
O silêncio não é de todo mau, chega a ser sinônimo de sabedoria: serve para alinhar o pensamento, ligar o “modo racional”de cada um, promover concentração e até encontrar a paz, mas seu excesso é capaz de levar a um ataque de nervos, tira do eixo quem tem paixão por se expressar e amplia muito nossas angústias, ainda que elas sejam facilmente aliviadas.
Chega a ser engraçado escrever sobre o silêncio, ele que é justamente a ausência de palavras, mas é que elas não somem, apenas não conseguem sair. E foi a melhor forma que encontrei de mostrar que ele pode ser forte, mas ainda não se tornou mais que eu nesse duelo feroz entre meu pensamento e meu alívio.
Para comemorar o dia do silêncio, que ele se torne cada vez mais compreensível e compreendido.