sexta-feira, 11 de maio de 2012

Feliz Silêncio (atrasado)

Sete de maio foi dia do silêncio e justamente por isso, resolvi quebrar o meu nesse blog.
Comecei a rir quando percebi que minha tia estava prestes a bater o carro porque o meu silêncio a estava desesperando enquanto íamos de um lugar a outro. Ri porque achava que ele só incomodava a mim, mas quando de canto de olho vi que minha tia dirigia com um olho no trânsito e outro tentando descobrir o que aquele meu olhar fixo em lugar nenhum,  o franzido na testa e as mãos na cabeça de uma menina mergulhada na falta de palavras queriam dizer, percebi que meu silêncio fala muito mais alto do que qualquer escândalo que eu possa fazer.
Já me acostumei. Mentira. Eu o acho tão irritante quanto música alta, gente inconveniente, livro maçante, coisas perdidas – principalmente aquelas que somem quando precisamos delas.Justamente porque ele fala alto demais comigo, ao ponto de me fazer calar, é inconveniente o suficiente para aparecer quando eu mais preciso descarregar o que guardo e sempre faz perder o que eu mais uso, as palavras que tanto estimo.
O meu silêncio é um baú que se tranca nos meus maxilares, ao ponto de enrijecer com tanta força os músculos de minha face e fazer com que eu não consiga falar. Quando eu me tranco, nada me faz largar o nó que se estabelece entre o meu raciocínio e minhas cordas vocais.
É então, com um nó na garganta e outro na cabeça,que minha imaginação faz tudo o que não deveria: funciona, coloca em prática todos os  “ses”, “mases”, “quases”e porquês. Medos, desejos, expectativas, hipóteses, frustrações vêm à tona, mas não saem, continuam me afundando na falta de palavras.
Quem me conhece tagarela, disposta e curiosa não faz a menor ideia de que me recolho de forma tão assustadora, sim, porque é capaz de botar medo em qualquer um com a mínima inclinação para a comunicação, ainda mais para quem acha que o diálogo é a melhor forma de resolver as coisas, como eu, que ironicamente escolho, ou melhor, me imponho, intermináveis monólogos.
O silêncio não é de todo mau, chega a ser sinônimo de sabedoria: serve para alinhar o pensamento, ligar o “modo racional”de cada um, promover concentração e até encontrar a paz, mas seu excesso é capaz de levar a um ataque de nervos, tira do eixo quem tem paixão por se expressar e amplia muito nossas angústias, ainda que elas sejam facilmente aliviadas.
Chega a ser engraçado escrever sobre o silêncio, ele que é justamente a ausência de palavras, mas é que elas não somem, apenas não conseguem sair. E foi a melhor forma que encontrei de mostrar que ele pode ser forte, mas ainda não se tornou mais que eu nesse duelo feroz entre meu pensamento e meu alívio.
Para comemorar o dia do silêncio, que ele se torne cada vez mais compreensível e compreendido.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Regresso

        Nada melhor que o nosso canto. O de gente que amamos também é bom, é ótimo. Mas o nosso cheiro, aquele jeito de colocar os livros sobre a estante, o labirinto do próprio armário, a bagunça das gavetas e a clássica diferença de apertar o tubo de creme dental são os mais puros reflexos da tão querida privacidade. Privacidade para dormir com aquele pijama velhinho, acordar e sair com o cabelo embaraçado, comer com os pés na cadeira da frente e outras coisas que a boa educação não deixam fora de casa.
       Chegar depois de um longo e conturbado período fora de casa, foi, no mínimo, um conforto. Só que enfiei na cabeça que não valia apenas voltar, eu precisava deixar ir.E dessa vez não era só porque achei bonito o texto do Fernando Pessoa, aquele que diz que tudo o que chega, chega sempre por alguma razão. Nem o do Caio Fernando de Abreu que afirma estar se livrando de um monte de coisas, ou qualquer outro que mande esvaziar as gavetas e outros dispositivos que só servem para acumular. Eu senti uma necessidade imensa. "Adeus, ao acúmulo." Minha primeira meta para ter um ano diferente.
       Resultado? fiz uma faxina de deixar minha mãe, a pessoa mais caprichosa da face da Terra, boquiaberta. Eu literalmente me livrei de coisas que simplesmente não se encaixavam mais em mim. "Ah, porque isto aqui foi fulana que me deu." Ela não fica menos importante se eu não o tiver mais. "Esta coisa foi ciclano que me mandou não sei de onde." Obrigada, ciclano, mas já deixou de me servir há tempos. E a que mais usava: "Guardei tal coisa para me lembrar de tal ocasião" Quer saber? Se foi mesmo tão importante, não é algo material que vai me impedir de esquecer.
       Missão cumprida! E altamente recomendada. Além de doar para quem não tem, que é algo muito importante para quebrar a rotina do consumismo a que estamos rodeados, é um ato de caridade para si mesmo: ufa! Não somos Atlas para carregar o mundo nem nas costas, nem nos armários. Ganhou algo novo? Despeça-se do antigo, o que não significa esquecê-lo, mas sim deixar no devido lugar,que é o passado. Passou, foi legal, você se divertiu, se emocionou, conheceu alguém especial, agora, ficar acumulando e se agarrar a tudo isso, não traz nada de volta, aliás, só confirma como somos impotentes em relação ao curso do tempo.
       E quanto ao título acima, melhor trocá-lo para "Progresso".

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Indignação

        Acabei de ouvir a voz de um homem que trabalha desde que se sustentou sobre as próprias pernas. Quando teve a oportunidade de colocá-las para o alto, preferiu continuar sobre elas pelos pastos, colhendo, plantando, criando para aumentar números que os poderosos proclamam de boca cheia: o país cresce! Mas não amadurece, não apoia, brinca com a cara de quem o constrói. Esse mesmo homem a quem me refiro, entrou para as estatísticas das vítimas de delinquentes - para ser politicamente correta, afinal, vagabundo é um termo (que polui seu texto) pejorativo, ofensivo e pode causar danos irreversíveis à mente do sujeito que furtou sem dó nem piedade o que outra pessoa levou uma vida toda para construir. (Aqui me recorro à Martha Medeiros: "Se você tem mais de nove anos, sabe reconhecer uma ironia".)
        Um furto, um assalto, um sequestro, um golpe e tantos outros são unidades que se transformam em milhares e abalam, não só a propriedade, mas a integridade física e psicológica, os planos futuros, as metas. Vão além do prejuízo: são, não mínimo, frustrantes para quem paga seus impostos e os vê sendo desviados sem o menor escrúpulo, tomando destinos diferentes do prometido na hora da voto.
        Ser honesto é ser burro, incompetente, idiota, até ridículo aos olhos de quem tira vantagens passando por cima dos outros. É acreditar em valores que se tornam obsoletos na velocidade em que a desordem ganha campo em nossa organização social. É ser desinformado ao ponto de não saber que a "ilustre Comissão dos Direitos Humanos" irá defender qualquer um que se fizer de coitado e colocar a boca no trombone contra as "forças opressoras".
        Direito Humano é o de ter educação decente, tratamento médico qualificado, polícia preparada, acesso à informação e cultura. Não é sair por aí protegendo quem não permite que a vida progrida e é incompetente ao ponto de ter que tirar dos outros o que não consegue por esforço próprio. Sem aquela desculpa de que nem todos têm oportunidades, por favor, pois existem suficientes exemplos de pessoas que saíram da miséria, do nada, e através do próprio trabalho, talento e esforço conseguiram melhorar de vida.
        Esforço é a ação em desuso, o caminho mais fácil é enganar os trouxas que trabalham, que ainda se importam com os valores morais. Como a ardilosa e feliz alegoria de Gil Viecente: Ninguém quer trabalhar, mas Todo Mundo quer vida boa. Ficamos, nós, com a revolta no colo e os abraços atados, esperando a nossa vez de perder o que conquistamos para quem não se deu ao trabalho de tentar.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Amigas III

-O que foi aquilo?
-A parte dos gritos ou da porta batendo?
-Basicamente, o que foi aquele descontrole?
-A reação de uma pessoa normal e cansada?
-Até que enfim lembrou-se de ser normal. Estava faltando uma pitadinha de emoção!
-Emoção? Será que dá para levar a sério?
-Tudo bem, tudo bem... Chora, vai, pode chorar.
-O choro não vai resolver o problema.
-Nem tudo depende de você. Além do mais, o choro alivia o peso dos problemas.
-Mas não resolve!
-Eu vou precisar repetir que nem tudo está ao seu alcance?
-Não, mas... Eu não posso fazer como qualquer um, despejar adrenalina de vez em quando?
-É claro que pode. Aliás, você é hilária nervosa.
-Muito obrigada, foi super motivador...
-Vou tentar melhorar: vai fazer bem pra você despejar um pouco desse peso que carrega, relaxa!
-Não consigo, no momento só choro. E isso é tão...
-Normal! Todo mundo chora de raiva... Vai, alivia um pouquinho.
-Ainda bem que o seu colo existe!

sábado, 12 de novembro de 2011

Intenção

        Já não é a primeira vez que recorro a esse blog para lembrar a alguém que alegra minha vida, o quanto é importante. Minha real intenção seria colocar nesse seu coraçãozinho, as vezes tão apertado, que é querida, amada e valorizada por um monte de gente, que podem não ser as melhores pessoas do mundo, mas sim, seus verdadeiros amigos - antes de qualquer outra coisa.
        Gostaria de fazê-la entender como tem um sorriso lindo, que ilumina tudo por onde passa e que suas lágrimas também nos fazem sofrer, mais ainda, tentaria deixar o mais explícito possível, que a infelicidade, a tristeza, a vontade de sumir são inevitáveis, mas não devem ser constantes; que nem sempre as coisas saem como planejado, mas é aí que entra nosso desafio de mudar a rota, optar por uma saída e, literalmente, como bem sabe fazer, se esticar toda para alcançar o que quer, mesmo que em grande parte das vezes sinta-se limitada, presa, praticamente enclausurada, a única coisa que resta a fazer é acreditar que existe um modo de ser diferente.
         Repetiria milhões de vezes, embora já esteja na casa das centenas, que o amor próprio é algo que se deve estabelecer a cada dia, um esforço contínuo de aceitação dos defeitos e valorização das qualidades, porque só assim se pode ser amado por outra pessoa. Queria nunca deixá-la esquecer do valor que tem e dos amigos com quem pode contar.
         Eu sei que digo tudo isso sempre, e continuarei a dizer sem descanso, até que um dia as coisas que hoje a incomodam, passem a ser mais uma pedra em que se tropeça, machuca, com frequencia faz chorar, mas que serve - como nada mais o faz melhor - como aprendizado. Eu sei que é difícil, porque também acontece comigo, mas existem duas opções não-excludentes para se crescer: a primeira é se machucando, a segunda é acreditando em si mesmo e no bem que lhe queremos.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Orgulho e vergonha: escolha sua dose!

        Tenho muito orgulho de meu país: do povo ao qual pertenço e da memória (mesmo que alguns a tenham como insignificante) que com ele divido, valorizo suas belezas naturais e, acima de tudo, amo a língua que nos une! Meu patriotismo, entretanto, não chega ao limite do ridículo em acreditar que tudo por aqui é perfeito, pelo contrário, ele me faz perceber o quanto estragam, maltratam e limitam meu Brasil.
         Tenho muita vergonha de meu país: da forma como trata os que dependem de políticas públicas - fazendo delas um alicerce eleitoral - de sua pouca formação, dos erros de governantes, que não se interessam pelo povo, e de governados, que não se interessam pelo Poder. É ridículo como exige de seus professores, policiais e médicos, mas não lhes dá meios para trabalhar, como se esquece das próprias qualidades e supervaloriza o exterior. Longe de autossuficiência, protecionismo ou qualquer organização radicalmente fechada, mas o segundo plano em que os brasileiros colocam seu país é algo que passa do vergonhoso. Exatamente por isto, o Brasil carece de confiança: não pune, não insiste, não pratica a ordem e, assim, fica longe de alcançar o progresso.
         Nada mais expressivo no que tange à vergonha do que a corrupção que assola (e atola) tudo por aqui. A sujeira que a politicagem espalha já não cabe debaixo do tapete e passa tranquilamente, como se fosse normal, perante nossos olhos, alguns indignados, outros que simplesmente deixaram de querer assistir ao espetáculo repugnante que constitui nosso cenário político.A corrupção não gera apenas prejuízos econômicos e sociais, tirando dos menos favorecidos e enriquecendo os que tiverem a sorte (e foram ardilosos o suficiente) de se elegerem e ingressarem no "sistema", seu maior mal é a inércia que provoca, congelando o discernimento dos espectadores.Mergulhados e assim congelados, muitos já perderam a capacidade de acreditar na honestidade e chegamos ao ponto de não reconhecê-la mais, confundindo-a com heroísmo.
         O policial que essa semana recusou dinheiro e prendeu um poderoso traficante não é uma exceção à taxação que fazem a respeito de sua, e qualquer outra, corporação. Ele é a regra, ele obedece, como bem disse durante a entrevista, os valores que recebeu de seus pais, os outros - corruptos, bandidos - é que são uma exceção, infelizmente mais expressiva.Orgulho? Imenso! Em saber que os íntegros ainda são reconhecidos, mas não são heróis, são gente comum que não se deixou envolver por essa teia de falcatruas e inconsequências e preza pelo amor e respeito de quem ama, e até de quem não conhece. A maior preocupação é ver que a honestidade tornou-se rara o suficiente no meu país para ser transformada em manchete de jornal, talvez com o intuito de (merecidamente) divulgar os poucos praticantes, ou então para não deixar acabar a crença em mudanças e na vitória, um tanto quanto utópica, do bem.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Covardia

        Uma vez me perguntaram se eu era intolerante a algum tipo de gente e eu não tive dúvida em dizer que sim, não tolero gente covarde. Não a covardia de quem tem medo, receio ou preocupação, mas sim, covardia de quem se aproveita da fraqueza dos outros para manipular, ofender, castigar e subjugar, de quem não dá chances de defesa e abusa de seus direitos de forma perversa, aproveitando para diminuir quem está a seu redor, maltratando, ignorando e até agredindo.
        Meia dúzia de covardes fazem um estrago tremendo: de famílias desestruturadas pautadas em figuras dominadoras e aparentemente sem opositores, até países que têm no poder semelhantes aberrações morais, porque não pode ser humano aquele que se impõe pela força. Existe muita maldade no mundo e, bem no fundo dela, existem covardes que precisam de armas, bombas e muito dinheiro para se fazerem obedecer. Qualquer influência - política, econômica e até sentimental - é motivo para estar além das demais criaturas de um território estabelecido.
        É difícil pensar na covardia em tempos atuais, quando o acesso às melhores coisas do mundo é cada vez mais fácil,  nossa imaginação tem menos trabalho quando se pauta em séculos passados ou em sociedades fechadas que não se integraram ao querido "mundo ocidental". Um pequeno esforço, entretanto, permite identificar tanta gente que não consegue respeito sendo bom e apela para a violência. Quem não é obedecido, faz-se obedecer e, então, quem não tem juízo e bate o pé, arca com as consequências daquilo que, a bem da verdade, é mais insegurança - e me arrisco até a considerar carência.
        Covardia tira do sério quem não precisa da arbitrariedade para sentir-se bem perante o espelho, é o comportamento mais traiçoeiro, fraco, revoltante e menos digno de qualquer ser racional. Não podendo erradicá-la, por mais que queira, resta-me apelar para que quem se considere, no mínimo civilizado, não se sujeite a esse tipo de repressão, porque omitir-se, sim, é a maior covardia.